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Entrevista: Tasha e Tracie – As meninas que *s
menin*s gostam

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Prestes a lançar o EP ‘Diretoria’, as gêmeas Tasha e Tracie estreitam ainda mais as barreiras entre o rap e o funk putaria.

Rap e funk são filhos de mesma mãe. Ambos originários em periferias — o primeiro, pelas mãos de imigrantes jamaicanos que se mudaram para Nova York; o segundo, em festas nos morros cariocas — os estilos têm uma raiz direta em comum: o miami bass, subgênero do hip-hop surgido nos bailes negros de Miami no final dos anos 1980 e serviu de base rítmica para o surgimento justamente do que a gente conhece hoje como o funk carioca dos anos 2000, o “pancadão”. 

Apesar das ligações estilísticas e geográficas entre os dois gêneros — lembrando que o rap, quando chega ao Brasil, no final dos anos 1970, finca raízes na periferia paulistana — Tasha e Tracie acreditam que, até pouco tempo, era comum as pessoas “torcerem o nariz” quando elas soltavam algum hit de funk durante a época que discotecaram em festas de rap. “Até uns sete anos atrás, as pessoas do rolê de hip-hop eram muito ‘mente fechada’ para funk e até pro trap mesmo, principalmente os mais oldschool [‘velha escola’]” explicou Tracie Okereke em entrevista à Casa Natura Musical. Sentada ao seu lado e vestindo uma camisa do time italiano Juventus rosa estilizada, sua irmã, Tasha, concorda que hoje o meio do rap está mais aberto ao funk, principalmente depois da ascensão do trap funk e do grime. “E eu acho está muito ligada à autonomia que o avanço das tecnologias proporcionou para a gente”, concordou Tasha Okereke. “Hoje, a gente não depende tanto que um Fulano X importante naquele meio ouça o seu som e te ajude na sua caminhada. É só postar, que seu trampo vai ter 500 visualizações. Pode parecer pouco, mas são 500 pessoas que gostaram do seu trabalho e podem te levar a outros lugares”. 

“Se tem uma coisa que a gente aprendeu na música, foi que do mesmo jeito que um dia você tá no topo, no outro, você pode não ser ninguém”.

TRACIE OKEREKE

Gêmeas univitelinas, Tasha e Tracie Okereke começaram no rap nacional discotecando. Na verdade, mais ou menos: a dupla nascida e criada na Zona Norte paulistana tem uma trajetória um pouquinho anterior na cena paulistana. Irmãs do Bitrinho, um dos fundadores da lendária Batalha do Santa Cruz, as irmãs começaram a frequentar aquela que é uma das batalhas de rima mais importantes da cena de rap paulistana, responsável por revelar nomes como Projota, Emicida e Rashid, quando ainda eram muito jovens. Só que não necessariamente para rimar. “A gente era muito tímida nessa época. Mas foi quando conhecemos a Drik Barbosa, que incentivou muito a gente a começar o Expensive $h1t”.

O Expensive $h1t é um blog de moda que Tasha e Tracie começaram em 2014, para poderem falar sobre moda a partir de uma perspectiva periférica. Misturando referências de moda streetstyle internacional com artigos customizados da quebrada local, o blog foi um sucesso: rendeu visibilidade de grandes marcas como Avon, i-D e UOL, foram as primeiras brasileiras a saírem no Afropunk, em 2015, além de terem despertado a atenção do Dapper Dan, estilista do Harlem, de Nova York, conhecido por introduzir a alta costura no universo do hip-hop. O nome do blog veio do disco homônimo do Fela Kuti, lançado em 1975. 

Se você tá se perguntando o porquê de duas meninas, na época com 18 anos, crescidas em Trindade e no Jardim Peri, na zona norte de São Paulo, terem escolhido homenagear o lendário artista nigeriano pioneiro do afrobeat para dar nome ao blog de moda das duas, é porque eu esqueci de contar um detalhe: o pai da Tasha e da Tracie é nigeriano. Veio para o Brasil em 1993, conheceu a mãe delas e tiveram as duas em 1995, mas não continuaram juntos. O pai, de origem igbo, abriu alguns restaurantes no centro de São Paulo e as meninas viveram a infância e adolescência assim, revezando entre os fluxos e os sambas da ZN e os afrobeats, souls e black musics do centro. De um primo pastor por parte de pai, veio o convívio em igrejas evangélicas nigerianas que, segundo as artistas, explica a relação diferente que elas cresceram com a música. “Na igreja, tinha música, todo mundo dançava mexendo a bunda, o quadril, independente se você era homem ou mulher. E isso não era visto como algo sexual”, lembra Tracie. 

Se envolver profissionalmente com música sempre pareceu um caminho muito natural para as gêmeas de 26 anos, fãs de Tupac e Snoop Dog — elas têm a capa do disco Doggystyle, de 1993, tatuado no braço . Mas antes de começarem a conseguir pagar as contas com o trabalho musical e enquanto faziam os corres de moda do Expensive $h1t, fizeram de tudo um pouco para sobreviver: foram camelô, trabalharam em telemarketing, em loja de shopping, em restaurante. Passaram aperto e tiveram que mudar de casa várias vezes para cortar gastos com aluguel. O jogo foi virar para elas em 2017, depois da participação no Projeto Melissa Meio-Fio, na SP Arte, onde as duas apresentaram uma exposição de roupas e acessórios. De lá pra cá, compraram uma controladora baratinha, entraram na CEIA Ent como DJs, até deixarem a insegurança de lado, meterem as caras e virarem MCs. Movimentaram a cena do hip-hop paulista em 2019 o EP ROUFF, em parceria com a rapper Ashira, e agora, dois anos depois, se preparam para lançar o segundo trabalho, Diretoria.

  

 Em Diretoria, Tasha e Tracie continuam, assim como nos seus trabalhos anteriores, experimentando a fusão entre rap e funk do jeito delas: com rimas sobre a vivência de duas, agora, “patrícias de quebrada”, sobre autoestima da mulher periférica e sobre sexo em cima de beats agressivos que passeiam entre drill, grime e trap, mas sem se fecharem em um único gênero. O EP, que sai no próximo dia 19, traz participação de Yunk Vino na já lançada faixa S.U.V., além de feats com a rapper ONNiKA, Febem e Veigh. A produção dos beats ficou por conta de DJ MF, Pizzol, Devasto e MU540, com quem elas já tinham trabalhado no single “TANG” (2020).“Continuamos ‘agressivonas’, uma característica que todo mundo sempre associa à gente, mas acho que esse trabalho tem uma ambiência bem mais obscura do que o ROUFF”, comenta Tracie. Tasha explica: “O ROUFF é mais ‘domingo de sol na quebrada’. Já o Diretoria, é mais pra você escutar no carro, de noite”. O disco será lançado pela CEIA Ent, mesmo selo do rapper mineiro Djonga. 

Um dos reflexos da popularização do trap no Brasil foi a democratização das letras sobre sexo de maneira mais explícita no rap, gênero que, até então, era mais conhecido por suas letras conscientes e por sua mensagem. Só que antes do primo gringo aterrisar por aqui, Tasha e Tracie já carregavam com elas outra referência, mais perto delas, de como cantar sobre sexo: o funk putaria de São Paulo. “É muito diferente o funk comercial daquele que a gente cresceu ouvindo, que é mais explícito”, comenta Tracie. Sentem falta, na cena de rap brasileira, de artistas que vão para esse caminho mais explícito, como Foxy Brown e Lil Kim fizeram na gringa. Mas reconhecem que as funkeiras sempre falaram sobre sexo desse jeito. Em Diretoria, as duas vão estreitar ainda mais as relações entre o seu trabalho no hip-hop com a bagagem do funk putaria. “A gente tá rimando sobre sexo de um jeito mais escancarado, mais pretensioso”. 

Para além dos samples e do vocabulário da putaria, o funk também aparece como um recurso de memória afetiva nos raps de Tasha e Tracie — isso desde o ROUFF. Em “E.D.B.B.”, faixa do EP de 2019, a dupla rima “E toda vez que nós passar na sua cabeça vai tocar/ Olha o kit, olha o kit, olha o kit pá pá pá”, uma referência ao funk “Olha o Kit”, de 2009, do MC Dedê, um dos pioneiros do funk ostentação em São Paulo. O título desse texto, inclusive, vem de um sample da MC Menorzinha que as gêmeas usaram na introdução de “TANG”. Em Diretoria, essa fórmula continua. O nome do EP, além de remeter à estrutura das escolas de samba, é uma menção à música homônima do MC Primo, um dos seis MCs da baixada santista assassinados entre 2010 e 2013. “Muita gente que andava com a gente na adolescência vai ouvir as nossas músicas novas e pensar: ‘caralho, essa era a música que a gente sempre ouvia no rolê’ ou ‘essa era a gíria que a gente sempre falava’”, explicou Tracie. “O EP tá cheio de referência afetiva que quem é da nossa geração e tem vivências parecidas com as nossas vai pegar na hora”. 

Todo o processo de produção de Diretoria foi feito em um mês. Inclusive, na madrugada anterior ao nosso encontro, as gêmeas estavam no estúdio, finalizando uma das faixas do trabalho. Com o tempo apertado para entregarem o trabalho novo, sofreram com bloqueio criativo. “O que travou a gente no começo foi que muita gente ficou pressionando, na internet, se o EP ia ser igual a ‘Salve’ — single lançado no final de 2020 — ou igual ROUFF”, desabafou Tracie sobre a pressão de “sempre ter que superar o trabalho anterior”. “ A gente teve que desencanar da nossa autocrítica, parar de ficar nos cobrando pra fazer uma coisa extraordinária nesse EP e começar a nos divertir fazendo para podermos escrever essas rimas. E a gente espera que as pessoas se divirtam escutando também”.

“O universo da música não foi construído para os artistas ganharem dinheiro, muito menos o artista preto. Os artistas pretos são os que acabam com menos dinheiro e mais f*didos da cabeça”

TASHA OKEREKE

A pressão que as irmãs sentiram ao criar as rimas para o novo trabalho vem também da reflexão sobre o lugar que as artistas negras de rap ocupam no Brasil: alvo de discriminação tripla — machismo,  racismo e preconceito de classe. “Se tem uma coisa que a gente aprendeu na música, foi que do mesmo jeito que um dia você tá no topo, no outro, você pode não ser ninguém”, reflete Tracie. “A gente não canta vitória antes do tempo.”

“Se você for ver a história dos maiores artistas negros brasileiros, como Cassiano, Tim Maia, Simonal, sempre acabaram em mágoa e frustração”, lamenta Tasha. “Quando você vive num planeta onde tudo trabalha para o seu fracasso, para o seu  retrocesso desde o dia que você nasce, isso vai sempre te atrasar e te prejudicar. Ainda mais num universo como o da música, que não foi construído para os artistas ganharem dinheiro, muito menos o artista preto. Os artistas pretos são os que acabam com menos dinheiro e mais fudidos da cabeça”.

E como manter a sanidade? “Tem que meditar. Se blindar. Não se relacionar só com fãs ou pessoas com quem você trabalha. Ter muito pé no chão, independente se você for bom. Você pode ser o Michael Jackson, mas é tudo uma montanha-russa. Principalmente no Brasil, onde a gente sabe que o rap é um gênero que tá longe de estar entre os mais ouvidos”.

Para o final de 2021, as duas ainda pretendem lançar mais um EP, antes de partirem efetivamente para o lançamento do álbum de estreia. Ainda sem nome, o próximo trabalho da dupla deve focar numa linha mais de lovesong, o que não é exatamente a praia delas, mas é um pedido recorrente dos fãs nas redes sociais. Românticas ou “cachorras”, o que a gente sabe é que Tasha e Tracie são as meninas que tod*s *s menin*s, independente do gênero, deveriam estar ouvindo. 

#Goma é a nova publicação mensal online da Casa Natura Musical que vai perfilar artistas independentes da nova cena musical brasileira que você deveria parar para escutar. Possui uma abordagem multimídia que trabalha com vídeo, foto, texto e playlist musical, que serão divulgados ao longo do mês.

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